Neste terça (25), mulheres negras da Amazônia realizam a segunda marcha contra o racismo e outras formas de violência em Belém do Pará.

Eu sou negra nagô
no sangue, na raça e na cor
Quem foi que disse que o negro não tem valor
que o negro não sente frio
que o negro não sente dor?
“Negra nagô”, Ana Cleide da Cruz Vasconcelos, Quilombo Arapemã.

Nesta terça-feira (25), Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, ocorre em Belém do Pará a II Marcha das Mulheres Negras. Embora a historiografia oficial tenha nos invisibilizado, nós mulheres negras nunca estiveram ausentes da história da Amazônia, sempre (r) existimos!

A Amazônia, maior região em extensão territorial (mais de dois terços do território nacional, inclui parte do Maranhão e Mato Grosso), possui mais de onze milhões de pessoas negras, pressupondo a existência de mais de seis milhões de mulheres negras. É quase certo que, a exemplo do que ocorre em todo Brasil, cada uma de nós tentando enfrentar e sobreviver ao racismo da melhor maneira possível, vivenciando as condições de subalternização da qual tentamos nos livrar (às vezes, de maneira impossível (tentando sair do desse poço puxando-se pelos próprios cabelos), pois não tem sido fácil para algumas, enfrentar o racismo e seus efeitos até dentro da própria família, já que em alguns casos, filhos e filhas sentem vergonha por sua mãe e/ ou seu pai  serem negrxs.

O racismo tem sido a mais grave doença social do Brasil, que afeta famílias e indivíduos (negros e indígenas) e continua a ser reproduzido em toda a sociedade, inclusive (e principalmente) pelos meios de comunicação e pelo sistema educacional.

Nossas ancestrais nos fizeram sobreviver, nossa tarefa é fazer seguir a luta, ora como cuidadoras (parteiras, benzedoras, conhecedoras/plantadoras de ervas medicinais, etc.), ora tentando arrombar as portas, quebrar barreiras para fazer avançar o processo de eliminação das desigualdades sócio-raciais e de gênero, conquistando a equidade plena.

Hoje, as organizações de mulheres negras (r) existentes na Amazônia buscam o protagonismo em diferentes espaços-faculdades, mercado de trabalho, poder e decisão, (no legislativo, judiciário); Queremos mais mulheres negras na Política; lutamos para que as mulheres negras saiam das estatísticas de serem a maioria no trabalho doméstico. A temática ambiental, regularização fundiária, reforma política, dentre outros fazem parte da agenda das mulheres negras, sem perder de vista sua ancestralidade.

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Foto: ParÁfrica

Grande parcela das mulheres negras encontra-se em postos de trabalho precários no espaço agrário ou migram para o espaço urbano para trabalhar no serviço doméstico, realizando as tarefas rotineiras da casa como lavar, passar, cozinhar, na informalidade e  com baixa  remuneração.

Todas sabemos que essas meninas são, em sua maioria, negras (de quilombos, geralmente) ou indígenas. Ou seja, além do “ranço escravista”, esfacelamento de família negras e pensamento fascista,  existe a prática do trabalho  infantil e, em muitos casos, de pedofilia no ambiente dessas “casas de famílias”- as casas das crianças “transladadas”, não são, também,  “casas de família”?!

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Foto: ParÁfrica

Nossas motivações para marchar são várias! A vontade de (re) unir pensamentos e práticas das mulheres negras da Amazônia, refletir sobre o feminismo negro amazônico, as aflições, os sonhos, os desafios.

Porque as mulheres negras da Amazônia, assim como as mulheres negras de outras regiões do Brasil também tiveram suas avós e mães violentadas, assim como enfrentam cotidianamente o racismo. Tal processo, tecido na ótica do bem viver e do ubuntu contribui para o fortalecimento das mulheres negras amazônicas e coloca em pauta questões específicas das territorialidades negras amazônicas.

O processo de organização e realização da Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver,  em 18 de novembro de 2015, que concentrou mais de 50 mil mulheres negras, em Brasília, demonstrou não só a importância de se garantir  visibilidade  tanto da luta quanto a da disposição deste segmento, que almeja  participar como protagonista das decisões que envolvem o  todo do país.

A Rede Fulanas NAB acredita que o processo de construção da Marcha tenha sido talvez, mais importante que a própria Marcha. Indica para nós a culminância e o recrudescimento da luta contra o racismo, machismo/sexismo, pobreza e por um viver baseado em um modelo econômico includente e não predador da natureza humana e não-humana. Então, mesmo num panorama de dificuldades políticas e/ou justamente por isso, será importante não deixar que a mobilização conseguida com a Marcha das Mulheres Negras 2015 caia num vazio.

Estamos em marcha, nos fortalecendo coletivamente enquanto mulheres negras da Amazônia!

Texto: Durica Almeida – IMENA/Rede Fulanas NAB; Maria Malcher – CEDENPA/Rede Fulanas NAB; Nilma Bentes – CEDENPA/Rede Fulanas NAB
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Sobre Rede Fulanas - Negras da Amazônia Brasileira

FULANAS é uma Rede de Mulheres Negras da Amazônia pensada para diminuir a distância geográfica, dar voz as mulheres a partir de onde estão. Em sua Cabaça cabe assuntos que afetam as mulheres negras no seu cotidiano, como, por exemplo, as formas de racismo, situação de pobreza, a violência; impactos ambientais: os assuntos da ordem do dia, como: os direitos humanos; a economia, o trabalho doméstico, o acesso ao poder; os afetos como a solidariedade racial, o cuidado, a autoestima e cumplicidade das mulheres negras. Nossas ações são voltadas por uma Amazônia sustentável e democrática, pela ampliação e concretização dos direitos humanos, econômicos, sociais, culturais e ambientais (DHESCAS) de quem nela Habita.
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